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Fora dos holofotes da inovação, pesquisa em fármacos é desarticulada das empresas no Brasil

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Publicado em 6/10/2017

Um dos grandes desafios da ciência brasileira é a interação com o setor industrial e a transformação do conhecimento adquirido em aplicação. A segunda edição do evento Academia-Empresa promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) aconteceu no Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (Cienp), em Florianópolis, e abordou a área de fármacos sob a luz da comunicação entre produção científica e aplicação industrial. Pontos como o alto valor dado à publicação de artigos de escopo estreito e não às pesquisas colaborativas aplicáveis, a falta de um planejamento nacional de inovação em fármacos e a pouca integração entre instituições, além de entraves burocráticos, foram apontados como grandes atrasos ao desenvolvimento.

O vice-presidente da ABC, João Fernando Gomes de Oliveira , destacou o quanto a área farmacêutica tem pouco espaço na inovação brasileira e explicou que o objetivo do evento não era apenas expor as pesquisas em andamento de cientistas da área, mas sim pontuar as carências da inovação farmacêutica. “Temos que entender o que não está dando certo, as deficiências da cadeia que não permitem que tenhamos nas prateleiras das farmácias drogas de origem nacional”, pontuou.

Na abertura do evento, o Acadêmico Jorge Guimarães destacou a relevância de modelos de fomento na orientação de pesquisas para a inovação. Em sua fala, mostrou dados sobre o grande progresso da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), da qual é o atual presidente.
Falta de estratégia e comunicação inter-setores

O presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich , reforçou a pouca presença da ciência de fármacos brasileira no mercado. Para ele, falta um plano central de abrangência nacional que articule a inovação na área. “Nós temos um bom número de empresas atuando em projetos voltados para fármacos, mas sinto que falta uma articulação entre esses projetos e acredito quer isso se deva a carência de um plano nacional de inovação em fármacos, com atuação, possivelmente, da Casa Civil”, defendeu.

João Fernando ainda apontou o alto valor do mérito na academia – que se reflete na preocupação com a publicação massiva de artigos de escopo estreito e individual - e como isso se opõe à relevância do trabalho colaborativo para aplicação. “Para que o país alcance uma posição de relevância na produção, é preciso que haja essa estratégia de ampla escala, com objetivos concretos de retorno articulados com empresas, que Davidovich apontou, e que não temos aqui.”

Baixa competitividade em ensaios pré-clinicos

O investimento em ensaios pré-clinicos é um dos que mais sofre no país. A diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), Camile Giaretta Sachetti, mostrou que o Ministério da Saúde tem se empenhando em reverter essa posição de baixa competitividade elaborando um plano de ação para inserir o Brasil na pesquisa clínica. Para ela, o quadro atual está intimamente relacionado ao baixo número de pesquisadores na indústria, à pouca cultura de inovação no meio acadêmico e à formação superior despreocupada em qualificar químicos na área.

Dirceu Barbano, consultor da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), ressaltou a participação pequena do Brasil em centros de pesquisa no mundo. “1,4% dos centros mundiais estão aqui, é um numero inexpressivo neste cenário.” Dos estudos feitos no país, a maioria é do tipo observacional. Para Barbano, o país tem capacidade de se inserir nesse setor, mas a baixa adesão das universidades – que se reflete em poucos cursos e iniciativas voltadas à inovação - afasta os pesquisadores e a própria academia. O mesmo defendeu Reginaldo Arcuri, diretor do grupo FarmaBrasil. “Da forma como a pesquisa é feita, o pesquisador não chega ao medicamento. A indústria como conhecemos hoje é muito nova e ainda há muito a fazer para estreitar esses laços”, defendeu.

Alternativa no empreendedorismo

Victor Odorcyk, diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), também ressaltou a pouca interação entre academia e empresas. Lembrou que o Brasil caiu da 48ª (2012) posição para a 81ª (2016) no ranking de competitividade mundial em inovação e destacou o empreendedorismo de empresas start-ups como uma possível saída para a carência de inovação na área de fármacos.

Odorcyk comentou que, com essa premissa em mente, a Finep abriu um programa voltado para o ramo, o Finep Startup, que propõe um aporte de ate R$ 1 milhão para as iniciativas, prevendo investimento para propostas inovadoras das mais diferentes áreas. “De 503 inscrições, apenas três são da área química”, mostrou. Para o vice-presidente da ABC João Fernando Gomes de Oliveira, as startups “podem ser um caminho”. “A área de fármacos acaba ficando refém do modelo atual das empresas, que tem interesse maior na produção de genéricos, nas PDPs, e não na inovação”, afirmou.

Para o chefe de Departamento do Complexo Industrial e de Serviços de Saúde do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), João Pieroni, é essencial garantir fomento para as empresas farmacêuticas, que devem servir como âncora do sistema “empresa farmacêutica - centros de pesquisa e hospitais - empresas de base tecnológicas”. Ele afirmou que o BNDES tem se empenhado em investir no desenvolvimento de ensaios pré-clínicos no país, uma vez que são as fases de maior risco financeiro, além de integrar o Brasil com a cadeia mundial de produção.

Carência de formação superior na área

O Acadêmico Glaucius Oliva , físico e bioquímico, destacou a necessidade de uma mentoria na produção farmacêutica. Para ele, é necessário que o processo de produção seja invertido, pensando primeiros nas doenças que carecem de medicamento e, depois, nas moléculas. “Falta pessoal com experiência na produção de medicamento para preparar nossos acadêmicos que tem o conhecimento básico, mas não um treinamento de produção dessas drogas propriamente dito”, ressaltou.

É também o que pensa o Acadêmico e químico medicinal Eliezer Jesus de Lacerda Barreiro , pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, “temos uma deficiência de ensino muito grande e não é possível inovar com um único curso de formação na área”. Reforçou ainda que a química tradicional é muito diferente da medicinal e que a formação na primeira não abastece a necessidade de profissionais na área farmacológica. “Química medicinal não é síntese orgânica e não é possível chutar com as duas pernas. O químico medicinal é um caçador de compostos protótipos, nós aprendemos a verificar em moléculas promissoras qualidades toxicas e aí decidimos se seguimos ou não com ela”, explicou, diferenciando as áreas.

Burocracia representa entraves

Outro gargalo no processo de produção e liberação de medicamentos é a fiscalização. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é apontada por muitos pesquisadores como um dos maiores vãos nesse sistema. O gerente-geral de medicamentos e produtos biológicos da agência, Varley de Sousa, admitiu que a burocracia da organização atrasa a chegada de produtos às prateleiras, mas apontou: “Muitos dos atrasos causados pela Anvisa se devem também à falta de conhecimento dos pesquisadores sobre os regulamentos”.

Varley contou que a agência busca, hoje, reforçar a comunicação com cientistas para evitar situações como a aprovação de um medicamento em suas fases iniciais, mas que é barrado em razão de detalhes regulatórios no final. “A ideia é que os cientistas se tornem cientes da regulamentação e conduzam a pesquisa desde o início com essas normas em mente, para que não tenhamos que embarreirar a liberação para o mercado no final”, pontuou.

Além dos ruídos de comunicação, Varley destacou ainda a alta demanda em comparação com o número de profissionais disponíveis. “Em 2015, registramos 44 moléculas novas no Brasil, em comparação com 45 da agência dos Estados Unidos e 39 da União Europeia. No entanto a capacidade de eficiência não é proporcional, temos muito menos profissionais”, acrescentou.

Da esquerda para direita: O secretário do MCTIC e coordenador da mesa, Álvaro Prata, João Pieroni, Camile Sachetti, Victor Odorcyk e Varley de Sousa.

Exemplos de integração

Presidente da empresa farmacêutica brasileira Microbiológica, o bioquímico chileno Jaime Rabi é um exemplo de boa relação entre o universo acadêmico e empresarial. A Microbiológica foi fundada em 1981 por pesquisadores da UFRJ e tinha como objetivo exatamente construir a ponte entre academia e indústria, por reconhecer que a pesquisa tem papel inicial na inovação. A empresa teve papel central no desenvolvimento de pesquisas que levaram à produção de compostos anti-virais contra o HIV e hepatite.

Envolvida em acordo com a Fiocruz para a produção do sofosbuvir (anti-viral contra hepatite) em território brasileiro, a Microbiológica teve grande importância no desenvolvimento do medicamento liberado pela FDA (Administração de Alimentos e Drogas, na tradução do inglês. É a agência nacional americana responsável pela regulação destes produtos) e que passou a ser importado para o Brasil em 2015 pelo Ministério da Saúde. Para Rabi, um dos grandes problemas que travam o desenvolvimento de fármacos aqui e representam alto custo na compra desses remédios no exterior é a burocracia. “Uma das grandes diferenças que vejo entre a Anvisa e a FDA é que a primeira segue rigidamente a cartilha e a segunda tem maior abertura para diálogo”, comentou.

Para Heraldo Carvalho Marchezini, presidente da Biomm S. A., o segredo para estimular a inovação nacional está, de fato, em estimular os pesqusiadores a produzirem conhecimento em prol da sociedade. A empresa é uma das principais produtoras de insulina no Brasil, remanescente da Biobrás, fundada pela união de pesquisadores e empreendedores. Marchezini acredita que é preciso “criar os incentivos e o ambiente para promover a colaboração entre as universidades e a indústria”.

Veja aqui as apresentações dos palestrantes:

Investimentos em inovação na área de fármacos e medicamentos e avanços regulatórios na última década. Quais os próximos passos?

João Pieroni (CHEFE DO DEPARTAMENTO DO COMPLEXO INDUSTRIAL E DE SERVIÇOES DE SAÚDE | BNDES)
Camile Giaretta Sachetti (DIRETORA DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA | SECRETARIA
DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INSUMOS ESTRATÉGICOS)
Varley Dias de Sousa (GERENTE-GERAL DE MEDICAMENTOS E PRODUTOS BIOLÓGICOS | ANVISA)

Investimentos das indústrias farmacêuticas instaladas no Brasil (estudos pré-clínicos e clínicos) visando o desenvolvimento de novos medicamentos

Dirceu Barbano (CONSULTOR | INTERFARMA)
Reginaldo Arcuri (PRESIDENTE | GRUPO FARMABRASIL)

Casos de sucesso da interação entre universidade e empresa visando o desenvolvimento de novos medicamentos

DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS ANTIVIRAIS
Jaime Rabi (PRESIDENTE | MICROBIOLÓGICA)

DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS BIOLÓGICOS: DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Heraldo Carvalho Marchezini (DIRETOR-PRESIDENTE | BIOMM)

O papel da academia no desenvolvimento de medicamentos no Brasil

A EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL NA PARCERIA COM O STRUCTURAL GENOMICS CONSORTIUM VISANDO O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS MEDICAMENTOS
Paulo Arruda (UNICAMP)

OS DESAFIOS DA QUÍMICA MEDICINAL NO BRASIL PARA DAR SUPORTE
AO DESENVOLVIMENTO DE NOVOS MEDICAMENTOS
Eliezer Barreiro (UFRJ)


(Thaís Soares para NABC)


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