Português > Notícias > A revolução da inteligência artificial


EVENTOS DA ABC

A revolução da inteligência artificial

  • Compartilhe:

Publicado em 3/11/2017

Richard Freeman, Ana Cristina Garcia, Edmar Bacha e Naercio Filho apontaram para progressos e perigos que as novas tecnologias podem trazer para a humanidade

De um lado, uma sociedade igualitária, em que as máquinas trabalharão e os homens poderão usufruir do lazer nos 365 dias do ano. Do outro, um mundo em que robôs tomarão os postos de trabalho, um grupo restrito de empresários controlará os modos de produção e as classes menos favorecidas, financeiramente e intelectualmente, ficarão à margem do desenvolvimento. Esses foram alguns dos cenários traçados por um time de especialistas de diferentes áreas que estiveram reunidos na última segunda-feira, 30 de outubro, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC) no simpósio "O Impacto da Inteligência Artificial e Robótica no Futuro do Emprego e Trabalho".

Economistas, cientistas sociais e engenheiros da computação apresentaram um panorama das mudanças que a robótica e a inteligência artificial trarão para as nações nos próximos cem anos. O roteiro parece com o de um filme de ficção científica, mas, segundo os especialistas, os progressos e também os perigos dessa nova revolução industrial já estão em curso. A solução mais harmoniosa, de acordo com eles, está no debate e na criação de mecanismos, jurídicos e econômicos, que possam transformar os avanços técnicos em benefícios para toda a sociedade.

A implantação de políticas que incentivem a redistribuição igualitária de renda gerada pela alta produtividade que os robôs permitirão, fazendo, assim, com que o mercado não vire as costas para o avanço foi uma das propostas apresentadas pelo norte-americano Richard Freeman. "Se pudermos dominar as máquinas, o tempo de trabalho seria revertido em tempo livre para nós", pontuou ele, que é economista e professor da Universidade de Harvard.

Robôs para aliviar a vida humana... ou não?

Fundador do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças (CdG), o Acadêmico Edmar Lisboa Bacha  fez coro ao ponto de vista do colega. Segundo ele, os economistas estão confiantes que o sistema de preços vá funcionar com os robôs, assim como ocorreu com o aumento da produtividade proporcionado pela mecanização.

"Na medida em que o preço de um robô for caindo, o salário também cairá. À medida que o salário cair ao nível do preço do robô, o trabalhador será substituído pela máquina, mas o preço daquilo que foi produzido também tenderá a cair", explicou Bacha, fazendo referência ao economista John Maynard Keynes.

"Voltaremos a Keynes de 1936, que disse: ’Quando meus netos vierem, daqui a 50 anos, o mundo vai ser uma maravilha. A produtividade vai aumentar de tal maneira que as pessoas ao escolherem entre trabalho e lazer vão preferir ter mais lazer. Elas não vão precisar trabalhar mais horas por dia’", ressaltou o economista.

Segundo Freeman, apesar de já haver robôs ocupando boa parte dos postos do mercado de trabalho, eles ainda são incapazes de executar com perfeição tarefas simples como falar, caminhar e mover objetos. Além disso, hoje, nossa principal vantagem sobre os robôs ainda é a capacidade subjetiva de julgamento. Uma qualificação que, no entanto, pode estar com os dias contados.

Extinção dos empregos até o fim do século

Professor de ciência da computação da USP, há 30 anos Fabio Kon vem acompanhando a evolução da produção de softwares no mundo. Segundo ele, nas últimas décadas, a inteligência artificial mostrou ser capaz de resolver problemas acima da capacidade humana. "Na minha intuição e experiência, qualquer atividade humana não só vai ser realizada pelos computadores ,como feita melhor por eles", disse o professor, que acredita que até final do século todos os empregos vão estar extintos.

"Até 2100, 100% dos empregos que existem hoje não existirão mais. Acredito que em 70 anos o ser humano vai precisar fazer apenas o que quer. E qual é o futuro da sociedade? Para a nossa sorte, isso não vai acontecer de uma hora para outra. Até lá, teremos que criar legislações e mecanismos específicos que respondam às demandas sociais e econômicas", ressaltou.

Futuro de lazer - para todos?

E como se ganha dinheiro tomando sol na praia? Ou melhor, será que todos terão seu lugar ao sol? Para o economista norte-americano Richard Freeman, o principal problema econômico causado por essa substituição de homens por máquinas está no fato de que o alto lucro obtido vai diretamente para as classes detentoras da tecnologia e a desigualdade econômica pode ser acentuada.

"Se eu sou dono do robô que faz o meu trabalho, isso significa menos trabalho e mais lucro para mim. Mas se outra pessoa é dona do robô que me substitui, eu não tenho ganhos. Ou seja, quem tem os robôs, tem o mundo", destacou Freeman.

Esse tipo de preocupação apontada pelo economista não é inédita na história recente da humanidade. A mesma dúvida gerada pela inteligência artificial hoje, apareceu durante as revoluções industriais, quando a classe trabalhadora se revoltou contra as máquinas que tomavam seus postos, no movimento chamado de luddismo. Para Freeman, no entanto, a situação não é a mesma.

"A grande diferença das máquinas de linhas de produção da revolução industrial para a inteligência artificial moderna é a autonomia. Os robôs de hoje têm a capacidade de aprender por si próprios, o que é novo em comparação com os avanços tecnológicos das décadas passadas", afirmou.

Caminho será definido por economistas

Já o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos  avalia que esta quarta revolução industrial seria, aparentemente, capaz de resolver os problemas que as anteriores criaram. "O Ryan Avent fala em seu livro, ’A riqueza dos humanos’, que a revolução digital reverte o modelo anterior, em que a expansão tecnológica provê o mercado de trabalho, e não o contrário", disse.

"Agora, a revolução digital significa diminuição no número total de empregos. Ela não permite uma dinâmica de ocupação de cargos. Isto é, o posto perdido na fábrica têxtil do Rio de Janeiro, por exemplo, não pode ser remanejado para uma vaga de frentista no Pará. O problema não é de desaparecimento de determinado posto de emprego por si só, mas sim o fato de que o desempregado daquele posto não pode ocupar outros cargos, porque todos eles exigem alguma qualificação especifica de variados níveis, que ele não tem", frisou o fundador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj).

Para Fabio Kon, a harmonia entre o social e o tecnológico pode estar nas mãos dos economistas. "Eles vão encontrar um caminho. Seja por meio de uma renda mínima, impostos sobre robôs, mecanismos de distribuição de renda pelo estado", sugeriu ele.

"Vamos ter que inventar mecanismos. Isso porque o Produto Interno Bruto (PIB) continuará crescendo. Mas ele vai ficar concentradíssimo nas mãos de empresas e pode gerar uma massa de desempregados. Não queremos isso. Logo, será preciso criar legislações específicas que solucionem esse desafio", observou.

Advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), Ronaldo Lemos prefere desenhar um cenário menos sombrio. Para ele, as novas tecnologias podem sim levar à criação de novos empregos e gerar impactos econômicos positivos na sociedade. "Os números revelam que em países com alta automação, como Estados Unidos, Japão e Alemanha, nunca se trocou tão pouco de emprego", afirmou.

Segundo Lemos, tributar quem tem o capital por trás destas tecnologias e redistribuir para quem não tem é uma das soluções que podem minimizar os impactos negativos da robótica e da inteligência artificial sobre a sociedade. "Ainda é cedo para predizermos o futuro, mas, por isso mesmo, precisamos discutir desde o início para que as decisões sejam tomadas previamente", destacou.

Tecnologia para resolver gargalos econômicos

A visão da engenheira Ana Cristina Bicharra Garcia vai pelo mesmo caminho otimista. Para ela, existem grandes gargalos nos sistemas brasileiros, como o de saúde ou o judiciário, que seriam ajudados pela inteligência artificial. A professora do Departamento de Informática aplicada da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) acredita na possibilidade de reverter os ganhos da tecnologia para equilibrar desigualdades sociais, fortemente presentes no Brasil.

Garcia citou o bem-sucedido caso da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A instituição já usa tecnologias que determinam o tipo e a quantidade ideal de fertilizante para cada área, permitindo uma agricultura de precisão. Já em outra ponta, na indústria do petróleo, sistemas de otimização de layout marinho ajudam projetistas a posicionar postos e plataformas, barateando projetos. "Estes são exemplos de uso da inteligência artificial como potencializadora da produção, uma possibilidade na qual acredito", disse Garcia.

A professora apontou ainda para a expansão de investimento em pesquisa nesta área. Segundo ela, os números vêm crescendo, como prova de mais cientistas e investidores enxergando na inteligência artificial um braço forte de crescimento da economia. "Em 2006, havia um investimento de US$ 1 milhão por ano para pesquisa de inteligência artificial no petróleo. Em 2017, subiu para US$ 15 milhões", disse ela, que acrescentou que os grupos de estudos na área cresceram de 35 para mais de 200 do ano 2000 até hoje.

Professor do Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Jose Manoel de Seixas também vê na inteligência artificial o caminho para o progresso. Entre as áreas que mais têm se beneficiado estão a física, a defesa e, principalmente, a saúde. "Há 22 países com 80% da tuberculose mundial. A Organização Mundial da Saúde [OMS] tem como meta acabar com a tuberculose no mundo até 2020. Ou melhor, levá-la a taxas baixíssimas. A inteligência artificial pode ajudar nisso", destacou Seixas.

O engenheiro lembra que a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern, antigo acrônimo para "Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire") tem utilizado a inteligência artificial como uma aliada para a detecção do bóson de Higgs, conhecido popularmente como partícula de Deus, e de novos eventos físicos. No Brasil, a Marinha tem lançado mão desta tecnologia para construir o submarino nuclear. "Mesmo as áreas mais sofisticadas, que tinham restrições a esse tipo de modelagem por inteligência artificial, acabaram demandando esse apoio. Na defesa, a inteligência artificial auxilia na construção sistemas bastante confiáveis para a detecção de possíveis ameaças no mar", afirmou.

Possíveis benefícios para o Brasil

Para Garcia, ainda não é o momento de o Brasil se preocupar em perder os postos de trabalho para máquinas. Não apenas pela alta demanda, mas também pelos entraves burocráticos do país que emperram o sistema de inovação, quadro que precisa de atenção. "O problema do Brasil não é a descoberta, mas a inovação. E isso por causa da burocracia", apontou.

"Não devemos ter medo da inteligência, mas sim da autonomia. A inteligência artificial já está no presente, e é preciso escolher a estratégia: freá-la ou se apropriar dela de forma benéfica para a sociedade brasileira", concluiu a professora.

Já Fabio Kon ressalta que muito além de medo, o Brasil precisa se preparar para tirar proveito dessa nova revolução. "Precisamos investir em educação para o desenvolvimento de softwares e gerar empresas nesses novos mercados. Se ficarmos na inércia que estamos, vamos ficar cada vez mais dependentes dos Estados Unidos e da China, países que estão bem à frente nessa nova corrida tecnológica", alertou.

Diretor do Laboratório Nacional do Bioetanol, Gonçalo Pereira enxerga na bioeconomia associada à inteligência artificial um importante nicho de mercado, do qual o Brasil pode se beneficiar. "Temos que aproveitar a biodiversidade brasileira para gerar processos industriais. Isto é, transformar e fazer a transição das fontes fósseis para renováveis", afirmou.

"O Brasil precisa aplicar a sua expertise e a própria inteligência artificial a seu favor. Se nós não tivermos a capacidade de liderar dentro do ambiente dessas novas tecnologias, vamos ser atropelados por ela e nos tornaremos vassalos", destacou Pereira, que também é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para o docente, o Brasil deve converter a biodiversidade em dinheiro. "O Brasil, essa potência na biodiversidade, pode gerar moeda a partir de processos bioeconômicos, de descarbonização, por exemplo. Quando uma indústria polui na China, polui no mundo todo. O país pode pensar em gerar mecanismos de troca para mitigar esses impactos", esclareceu.

Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Américo Pacheco enxerga nichos de mercado também no setor agrícola. "No conjunto microeconômico do país, há possibilidades provindas pela automação artificial e internet das coisas aplicadas na área agrícola. Um setor onde há oportunidade no país", avalia ele. Para o pesquisador, o desafio, no entanto, está no nível macroeconômico: "Como ajustar a sociedade a este tipo de novo ambiente é que é o problema".

Robôs ainda não são ameaça para mercado brasileiro

Para o economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), ainda é cedo para se preocupar com robôs tomando postos de trabalho no Brasil. Ele argumentou que a produtividade brasileira ainda é baixa se comparada com a de países desenvolvidos, como os Estados Unidos. "O trabalhador brasileiro produz, em média, cinco vezes menos que o americano", destacou.

Menezes Filho expôs ainda que o investimento em produção no país tem funcionado de maneira contraditória. Segundo o economista, no começo do século 20, o Brasil investiu em produtividade, mas apresentando baixas taxas de qualidade de ensino básico. Em 2010, o investimento em educação básica aumentou, mas, de acordo com o especialista, estranhamente, não gerou consequência direta na produtividade. Dessa, forma, a relação PIB/ trabalhador não mostrou significativa melhora durante esses anos.

Ele defendeu também que o setor de indústria e inovação no país ainda expõe sinais de atraso e pouco desenvolvimento, o que excluiu, a priori, uma preocupação sobre um desenvolvimento excessivo de tecnologias inteligentes. "Inovação não é algo no qual o Brasil é forte. Logo, esse tipo de inteligência não é ainda um perigo para o país. Temos um quadro de baixa educação, pouca inovação, importação alta de produtos prontos e a proteção do governo para produtos importados", afirmou

Inteligência artificial pontecializa desigualdades sociais?

Para o pesquisador e coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos do Trabalho (Nupet), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj) Adalberto Moreira Cardoso, o aumento de desigualdade é inerente ao processo de evolução tecnológica. Isso acontece, em um primeiro momento, pelo aumento dos lucros dos detentores da tecnologia em paralelo aos postos de trabalho que, inevitavelmente, se perdem. "Vemos um movimento de trabalhadores da indústria - que perdem suas vagas para as máquinas - para a prestação de serviços e, consequentemente, um aumento de postos de baixa qualificação e remuneração, que existem em maior número no terceiro setor”, explicou.

Além disso, o sociólogo pontuou, as revoluções tecnológicas forçam um sistema neoliberal, onde os países precisam flexibilizar suas legislações. O problema dessa dinâmica, segundo ele, é que as economias mundiais não são igualitárias e países em desenvolvimento não têm os recursos para concorrer em paridade com nações desenvolvidas. Para Cardoso, a revolução tecnológica atual tem um diferencial principal que impacta a economia. "Desta vez, diferentemente das revoluções anteriores, a atual pode tirar o emprego de engenheiros, arquitetos, advogados ou designers", alertou

O pesquisador chamou a atenção ainda que a troca de postos de trabalhos por máquinas é um sistema que, a longo prazo, não funciona em uma economia capitalista, que precisa de vendas e lucros para sobreviver. "O mercado é um dos lugares, ainda muito importantes, da realização dos lucros, e robôs não comprarão carros. Poderão até dirigi-los, mas eles próprios não comprarão", destacou.

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos tocou no mesmo ponto: "Nós precisamos lembrar que o capitalismo ainda é um sistema de consumo. Mesmo óbvio, parece que muitos esquecem que, para haver lucro, precisa haver quem compre", frisou.

Coordenador do simpósio, o Acadêmico Virgílio Almeida  chamou a atenção para a importância da discussão dos impactos das novas tecnologias sobre o mercado de trabalho serem ampliadaee. "Outros setores da sociedade precisam debater esses pontos, inclusive o mundo político, que insiste em não ver questões importantes para o país", afirmou.

Almeida ressaltou ainda o dado de um recente levantamento feito pelo Banco Mundial, onde foi analisado o impacto das tecnologias de informação e comunicação em diversos países. O relatório apontava o quanto tais tecnologias são essenciais para a economia e como elas precisam de um ambiente propício para serem aplicadas. "O que vemos no Brasil é uma dificuldade de termos essas condições analógicas apontadas pelo Banco Mundial. O excesso de burocracia é um dos entraves", frisou Almeida, que encerrou o simpósio com a seguinte mensagem:

"Temos que caminhar na direção de aproveitar a potencialidade que uma nova tecnologia de uso geral, como a inteligência artificial e a robótica, nos oferece. Não podemos perder mais uma oportunidade", afirmou.

Veja as apresentações dos palestrantes

Adalberto Moreira Cardoso

Cristina Bicharra Garcia

Fabio Kon

Gonçalo Pereira

José Manoel de Seixas

Naercio Menezes Filho

Richard Freeman

Ronaldo Lemos

Virgílio Almeida


(Thaís Soares, Aline Salgado e Elisa Oswaldo-Cruz e para NABC. Fotos: Pedro Henrique Carvalho)


Notícias


Rua Anfilófio de Carvalho, 29/3º
Centro - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Cep: 20030-060

[+55] (21) 3907-8100

[+55] (21) 3907-8101

Fale conosco

webTexto é um sistema online da Calepino