Vacina contra a Aids já está em teste na África e nos EUA

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Publicado em 18/05/2017

A neutralização de dois anticorpos contra o vírus HIV-1, que provoca a Aids, é a chave para a nova vacina que já vem sendo adotada, em fase de teste, na África. A novidade foi comunicada na tarde de segunda-feira, dia 8 de maio, na Reunião Magna da ABC 2017, no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. Líder do laboratório de Imunologia Molecular da Universidade de Rockefeller (EUA) e ganhador do Prêmio Robert Koch de 2016, o médico brasileiro radicado nos Estados Unidos, Michel Nussenzweig, membro correspondente da ABC, estuda os mecanismos de defesa do organismo, com amplo conhecimento em células dendríticas e em clonagem de anticorpos contra o HIV.

Apesar da possibilidade de prevenção e da existência de medicamentos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes, a Aids continua sendo uma das doenças cuja taxa de incidência continua crescendo. Segundo o cientista, há no mundo 36,9 milhões de pessoas infectadas. "A Aids continua sendo um problema de saúde global. A população continua se infectando pois quem tem o vírus não faz o tratamento e também está infectando outros", disse Nussenzweig.   

A uma plateia de mais de 200 pessoas, entre cientistas e estudantes, o médico explicou que, até há alguns anos, o grande desafio em desenvolver uma vacina contra a Aids era a necessidade de muitos anticorpos para se alcançar um nível elevado de neutralização do vírus. O insight para os cientistas veio, no entanto, por meio do estudo de pessoas que, mesmo infectadas, desenvolvem uma espécie de neutralização natural contra o HIV. "O nosso sistema imunológico não é preparado para perceber os glycans, os receptores do vírus. No entanto, é conhecido, há algum tempo, que poucas pessoas infectadas criam anticorpos que neutralizam o HIV. Essas pessoas desenvolvem essa imunidade em dois a três anos após serem infectadas", contou o pesquisador.

Segundo Nussenzweig, apesar de a ciência ainda não saber ao certo como essas pessoas infectadas geram esses anticorpos, foi possível, por meio da clonagem de células humanas B, identificar quais linfócitos (células de defesa do organismo) reconhecem a proteína do vírus. "Agora sabemos quais anticorpos conseguem descobrir as várias cepas do HIV", disse o médico brasileiro.  

Por meio do uso de anticorpos, o cientista e seu grupo de pesquisa na Universidade de Rockefeller conseguiu realizar uma imunização sequencial. Após testes com macacos, a equipe iniciou o ensaio em humanos, que têm sido feito na África e nos Estados Unidos. Atualmente, estão sendo utilizados dois anticorpos, que são injetados nas pessoas com a intenção de evitar a infecção. Nussenzweig explica que a intenção é gerar uma espécie de proteção no organismo dessas pessoas. O público alvo do estudo são mulheres em idade reprodutiva.  

"O anticorpo faz coisas que as drogas não fazem. Ele manipula as células dentríticas e tratam as células inflamatórias", ressaltou Nussenzweig. O médico acrescentou que o estudo com macacos infectados identificou que, quando tratados com anticorpos, a presença do vírus no sangue é reduzida até ser eliminada definitivamente. "O porquê ainda não sabemos explicar. Sabemos apenas que em metade deles a viremia foi suprimida", disse o pesquisador.

"Quando há o tratamento com anticorpo, o sistema imunológico responde ao antígeno. Achamos que em seremos humanos haverá esse mesmo efeito imunológico. Nossa ideia é usar os anticorpos como profilaxia à doença, por meio de sua administração subcutânea. O alvo são as jovens mulheres. Aquelas que precisam dessa proteção, mas não têm o hábito de se medicarem por prevenção. A cada três meses damos uma injeção desse anticorpo o e estamos aguardando os resultados", explicou Nussenzweig.

O ensaio com humanos foi iniciado em 2015. Ainda em desenvolvimento, não há previsão de quando os resultados do estudo serão apresentados. Segundo o pesquisador, a mesma técnica de imunização por meio do uso de anticorpos neutralizantes está sendo aplicada para estudo em outras doenças virais, como a zika e a dengue. "A verdade é que aprender a forma como as pessoas reagem à doença nos dá respostas melhores de como podemos pensar as vacinas", concluiu o cientista brasileiro.

Confira aqui a apresentação do pesquisador exibida na conferência

(Aline Salgado para NABC)



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