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CIÊNCIA NA MÍDIA

Stephen Hawking: entre a física teórica e o mundo pop

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Publicado em 15/03/2018

O físico britânico Stephen Hawking, morto nesta quarta-feira, 14, aos 76 anos, brilhou com igual intensidade em dois campos antagônicos. Ganhou o respeito da comunidade científica com sua sólida contribuição à física teórica – um tema impenetrável para a maioria das pessoas. Ao mesmo tempo, conquistou o público com seu talento para divulgar os segredos do universo, a ponto de se tornar um fenômeno pop.

Hawking chamava a atenção pelo contraste entre a vitalidade intelectual e a fragilidade física. Mesmo sem poder movimentar o corpo ou falar durante a maior parte da vida, deixou importantes trabalhos sobre as origens e a estrutura do universo, que ajudaram a entender o papel dos buracos negros. Mas, ao contrário da maioria dos cientistas, tornou-se uma celebridade. Ficou mundialmente conhecido após lançar, em 1988, o primeiro de seus populares livros de divulgação científica: o best seller Uma Breve História do Tempo. Mais tarde, ele aproveitaria a fama para popularizar a ciência, aparecendo em séries como Star Trek, The Big Bang Theory e Os Simpsons.

Hawking era conhecido também por sua leveza e bom humor. “Manter uma mente ativa tem sido vital para minha sobrevivência, assim como manter o senso de humor”, disse o físico em um documentário, em 2013.

A leveza pode ter sido a chave para Hawking desenvolver a rara capacidade de divulgar temas de alta complexidade para grandes plateias sem perder o rigor científico. “Além das contribuições à ciência, ele exerceu, por meio de sua personalidade e de sua condição limitada, uma imensa fascinação sobre o público de todas as idades, em todos os países, sendo talvez o principal divulgador das ciências exatas nos últimos 30 anos. Mesmo quando o público se esquecer do ícone, ele será lembrado pelos físicos por suas ideias inovadoras”, disse o físico Raul Abramo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), especialista em buracos negros.

Segundo ele, Hawking deu contribuições importantes para a compreensão de algo quase inimaginável: as singularidades da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein , como os buracos negros e o big-bang.

Ronald Shellard , diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas [e membro titular da ABC], destaca que Hawking tornou-se uma referência criando teorias de forma diferente. “Nós, humanos comuns, precisamos ao menos de lápis e papel. É surpreendente que ele tenha feito o que fez utilizando apenas sua fantástica mente.”

História. Hawking nasceu em Oxford, na Inglaterra, em 8 de janeiro de 1942, no mesmo dia em que a morte do astrônomo italiano Galileu Galilei completava 300 anos. Formado em Física na Universidade de Oxford, tornou-se pesquisador na Universidade de Cambridge de Cosmologia, a ciência que estuda o universo em sua totalidade, incluindo sua origem e evolução.

Aos 21 anos, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença rara degenerativa que paralisa gradualmente os músculos do corpo, mas não atinge as funções cerebrais. Segundo os prognósticos médicos da época, ele não teria tempo suficiente para terminar seu doutorado: viveria apenas dois anos. Ele não apenas concluiu sua tese, como mais tarde ajudou a revolucionar seu campo de estudos. Hawking perdeu, aos poucos, todos os movimentos do corpo e a fala se tornou cada vez mais difícil.

Em 1985, após ter pneumonia, passou por uma traqueostomia e perdeu completamente a voz. Imóvel em uma cadeira de rodas, passou a se comunicar usando um sintetizador de discurso construído em Cambridge e combinado a um software que produz uma voz eletrônica.

Nos anos em que se dedicou a estudar as leis do cosmos, Hawking propôs que se o universo teve um início – o big-bang – provavelmente terá um fim. Demonstrou que a Teoria da Relatividade Geral leva a concluir que o espaço-tempo iniciado no big-bang chegaria ao fim com os buracos negros. Para valer essa tese, as teorias de Einstein e a quântica devem estar conectadas – algo ainda controverso.

Em 1974, Hawking teorizou que, por causa dos efeitos quânticos, os buracos negros não são totalmente negros, pois deveriam emitir um tipo de radiação – contradizendo a ideia de que nada poderia escapar deles. A ideia era que, graças ao caráter aleatório da teoria quântica, não seria possível a existência do vazio absoluto no universo. Mesmo o vácuo espacial teria flutuações em seus campos energéticos, fazendo com que pares de fótons aparecessem continuamente para, depois, se destruir. Assim, um fóton seria tragado e outro, liberado no espaço – a chamada radiação de Hawking.


(O Estado de S. Paulo, 15/03/2018)



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