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CIÊNCIA NA MÍDIA

’Só temos verba para medidas paliativas’, diz diretor do Museu Nacional

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Publicado em 20/02/2018

RIO — Uma estante metálica repleta de caixas de depósitos, um computador desconectado, uma mesa ampla com papéis esquecidos. Na última quinta-feira, o paleontólogo Alexander Kellner  assumiu a missão de arrumar o cômodo do terceiro andar do Museu Nacional que, no século XIX, foi o quarto do imperador dom Pedro II, e agorá será sua sala como diretor da instituição.

Em entrevista ao GLOBO, o paleontólogo revela a intenção de transferir todo o aparato administrativo do museu para outro edifício, deixando o prédio histórico livre para mais exposições. Para isso, porém, precisa receber verbas e reformar o prédio que já foi uma vitrine do Império. Agora, até o quarto de Pedro II tem goteira.

De que forma o museu pode aproveitar o seu aniversário de 200 anos para obter melhorias?

O ponto principal é discutir como melhorar o diálogo entre o museu e a sociedade. Somos a instituição científica mais antiga do país. Passaremos o ano inteiro procurando investimentos que nos permitam melhorar as exposições. Isso envolve sobretudo aplicar tecnologia, recursos para que o visitante possa “conversar” com uma múmia, por exemplo.

Além do orçamento repassado pela UFRJ, o museu tem parceiros na iniciativa privada?

Não, e está na hora de as empresas contribuírem com o museu. Nosso acervo tem mais de 20 milhões de exemplares, e precisamos de ajuda para cuidar de tudo isso. São insetos, fósseis dos primeiros habitantes da América do Sul, o maior meteorito do país, entre tantas coisas. E a população não tem ideia dessa riqueza e diversidade.

Há outras fontes de renda?

Temos uma negociação adiantada com o BNDES que nos ajudará a restaurar salas antigas, inclusive esta. Eu, o diretor do Museu Nacional, serei o primeiro desalojado da instituição. Depois renovaremos a biblioteca, que fica no Horto, e que poderá receber parte do setor administrativo que está aqui. Mas também gostaria que o governo federal nos cedesse um terreno anexo à Quinta da Boa Vista, porque nos permitiria angariar verbas para construir novos prédios.

Em janeiro, o esqueleto de uma baleia jubarte voltou ao Museu Nacional. Outras peças podem retornar?

Sim. Na verdade, a baleia nunca deixou o museu, ela estava em recuperação. Ainda faremos algumas mudanças em sua sala antes de abri-la para o público, para que os visitantes tenham uma visão diferenciada. Também vou buscar no acervo outros esqueletos, dos fósseis às primeiras aves. Mas não basta colocar tudo em uma mostra, principalmente um material zoológico, porque corre o risco de ele apodrecer. Também não quero que a peça fique ali só para uma pessoa ficar olhando, precisamos ter alguma interatividade.

Um relatório de 2016 da Biblioteca do Museu Nacional destacou que seu prédio tem problemas como goteiras e infiltrações, principalmente na área do acervo, além de morcegos e gambás nas marquises. Como combater estes problemas?

Felizmente essas pragas não têm aparecido no acervo, mas ainda podem ser vistas nas áreas comuns. O maior problema são as goteiras. Tem até nesta sala. Ficamos preocupados quando cai uma tempestade porque só temos verbas para medidas paliativas de prevenção.

Outro problema mencionado é a segurança do acervo. Existe registro de roubos e furtos?

Atualmente, não. Alguns anos atrás, uma quadrilha se infiltrou como estagiários e furtou muitas obras raras, mas essas pessoas foram presas. Uma instituição com o nosso porte sempre será vulnerável, por isso precisamos ficar atentos.

O museu tem 88 professores. É suficiente para realizar todos os trabalhos que o senhor está planejando?

Não. O ideal seria ter em torno de 120 ou 130. Há cada vez mais demandas para atender. E enfrentamos uma tendência de queda, sobretudo entre os técnicos. Temos 215 servidores, e 30% podem se aposentar em até dois anos.

O senhor passa até dois meses por ano na China desenvolvendo suas pesquisas. Como pretende conciliar essa atividade com a direção do museu?

Não posso mudar o museu se estiver longe daqui. Só vou viajar nas férias.

Está satisfeito com o número de visitantes?

Quero aumentar para 1 milhão por ano até o fim do meu mandato, em 2021. Se não conseguir, vou ficar muito frustrado. Temos potencial para isso, mas estamos passando por maus momentos. Em 2017, recebemos só 190 mil pessoas. Há diversos sites dizendo que estamos fechados.

A Imperatriz Leopoldinense apresentou no carnaval um enredo sobre os 200 anos do Museu Nacional e terminou em sétimo lugar. O que o senhor achou do resultado?

Foi muito doído. Faltou sensibilidade dos jurados, o enredo era nota dez. Mas estamos muito gratos com o presente da Imperatriz. Inclusive queremos fazer uma exposição das fantasias e de algumas peças dos carros alegóricos da escola.

Parcela do orçamento do Museu Nacional não foi repassada
Instituição vinculada à UFRJ deixou de receber cerca de R$ 200 mil em 2017

RIO — O orçamento do Museu Nacional ficou ainda mais apertado recentemente. Vinculada à UFRJ, a instituição deveria receber R$ 515 mil anuais da universidade, em três parcelas. No entanto, nos últimos três anos, a fração final não foi repassada.

— Só estamos recebendo em torno de R$ 300 mil — lamenta Kellner. — Isso acontece porque a própria UFRJ está sofrendo um corte de verbas. Vamos ao reitor pedir mais dinheiro, mas sabemos que não é má vontade dele.

De acordo com Kellner, a falta de recursos é “especialmente visível” no Museu Nacional porque sua sede fica em um prédio histórico.

— Não posso contratar qualquer pessoa para fazer uma restauração. A manutenção é muito cara.

Procurada pela reportagem, a UFRJ não se pronunciou sobre os cortes orçamentários.

Com a chegada de novos recursos, Kellner espera aumentar o espaço de exposições em até 20%. A verba também deverá ser usada para incrementar mostras já em cartaz, como a de mineralogia, e concluir a manutenção de três salas. Uma delas, dedicada a dinossauros, foi fechada há um mês, após a detecção de cupins em sua base. Será reaberta entre abril e maio, quando forem concluídas as reformas e a troca do sistema de iluminação.

O museu tem hoje 21 exposições abertas ao público, sendo 18 permanentes e três temporárias. Entre as mais populares estão uma dedicada ao Tiranossauro rex e outra sobre o Egito Antigo.


(Renato Grandelle, para O Globo, 20/02/2018. Foto: Ana Branco/Agência O Globo)



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