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Saudação aos novos Acadêmicos, por José Murilo de Carvalho

Agradeço ao presidente Jacob Palis  a honra que me conferiu de saudar oficialmente os novos membros da ABC. Acontece que o presidente é um republicano. Ao me fazer o convite, e preocupado com o bem público, ou do público aqui presente, limitou meu tempo de fala a meros cinco minutos. Inexperto na retórica de saudação rápida, ou, para ser mais científico, em Sistemas de Saudação Rápida (SSR), mais conhecidos pela sigla inglesa WARS, ou Welcome Address Rapid Systems, pedi ajuda a colega mais experiente.

O primeiro conselho que me deu foi: dispense os salamaleques introdutórios, vá direto ao assunto. Você poupará um minuto e meio do tempo. E o segundo: seja conciso e preciso. Divida a fala em no máximo três partes, um minuto e 70 segundos para cada uma. Os temas das duas primeiras são obrigatórios, o da terceira fica por sua conta.

E prosseguiu: comece fazendo elogios aos novos acadêmicos. Massageie seus egos. Garanta-lhes que não estão na ABC por favor, proteção, cooptação, nepotismo, clientelismo, companheirismo, ou outras práticas comuns a estes trópicos. Diga-lhes que a Academia os foi buscar em suas universidades e centros de pesquisa, em seus departamentos e laboratórios, visando apenas seus méritos como pesquisadores, professores, orientadores, amigos da ciência. Que ela os escolheu para fazerem parte de um grupo seleto de cerca de 660 pesquisadores, apenas 0,5% dos 130 mil existentes no país. Assegure-lhes que a eles não se aplica de modo algum a conhecida frase de Groucho Marx: "Jamais entrarei para um clube que me aceite como membro". Diga-lhes que a ABC se orgulha de os incorporar a seu convívio.

Passe à segunda parte, prosseguiu. Elogiados e com os egos nas alturas, os novos acadêmicos estarão preparados para ouvir outra linguagem: fale sobre compromissos. Lembre-lhes que a ABC não é o Iate Clube dos bacanas da Ciência, que eles foram admitidos a uma instituição que em dois anos será centenária; uma instituição que sobreviveu graças à dedicação teimosa de alguns poucos, que por muito tempo teve escasso apoio oficial, que foi inclusive tungada pelo governo em 1928, quando teve demolido, sem qualquer compensação, o pavilhão da Checoslováquia na exposição do Centenário de 1922, que lhe fora doado. Somente agora, quase 100 anos depois, e graças aos esforços do presidente Jacob Palis, a ABC terá sede condigna no Palácio da Ciência. Lembre-lhes mais que depois dessa longa batalha, e graças ao esforço coletivo de seus membros, ABC conseguiu transformar-se de fato na Casa Brasileira da Ciência, congregando cientistas, promovendo pesquisas, envolvendo-se em projetos de interesse social nas áreas da educação, saúde, meio ambiente, tecnologia, criando parcerias internacionais e incentivando vocações para a ciência pela admissão de jovens pesquisadores como membros associados temporários. Pertencer à ABC, ao lado da honra, envolve o dever moral de participar de suas atividades e contribuir para seu engrandecimento.

Como ficou comigo a escolha do tema da terceira parte, pareceu-me que seria apropriado, em reunião de cientistas, comentar o filme Einstein e Eddington que revi recentemente. Durante a 1ª Guerra Mundial, enquanto cientistas alemães, inclusive o grande Max Planck, e ingleses se esmeravam em desenvolver armas para abastecer os exércitos de seus respectivos países, o então obscuro físico alemão, Albert Einstein, em Berlim, e o já reconhecido astrofísico inglês, Arthur Eddington, em Cambridge, correspondiam-se secretamente, o primeiro tentando completar sua teoria geral da relatividade, o segundo procurando comprová-la empiricamente, fotografando um eclipse solar. Einstein considerava a guerra uma loucura; Eddington opunha-se à amarração da Ciência a interesses nacionais. Para ambos, a atividade científica era empreendimento da Humanidade, voltado para os interesses dela. Finda a guerra, Cambridge teve a elegância de convidar Einstein para uma visita. No salão cheio, e aqui descrevo a cena final do filme, Einstein vê alguém descendo uma escada. Aproxima-se, encontram-se ao pé da escada e ele pergunta: "Eddington?" O outro responde: "Einstein?" Os dois sorriem e se abraçam.

Dado o roteiro da saudação, passo a desenvolvê-lo. Mas vejo que nada aprendi sobre Sistemas de Saudação Rápida: meu tempo esgotou-se e o presidente já consulta furtivamente seu cronômetro. Resta-me executar um final rápido. Muito prezados novos colegas, titulares, correspondentes e colaboradores, a ABC reconheceu seus méritos e lhes conferiu a honra de pertencer a seus quadros; honrem-na vocês também com seu trabalho e sua dedicação à Ciência como empreendimento universal e humanitário. Sejam muito bem-vindos.



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