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O que James Heckman não sabe

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Publicado em 26/09/2017

Leia a coluna "Educação em Evidência", de João Batista Oliveira*, na VEJA, publicada online em 24/9/2017:

O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

James Heckman (Foto: Peter Hoffman/Redux/VEJA)

James J. Heckman, Prêmio Nobel em Economia, encontra-se novamente no Brasil e teve uma brilhante entrevista publicada nas Páginas Amarelas da revista Veja desta semana. Nesta segunda-feira, 25 de setembro, faz, em São Paulo, uma apresentação sobre “Os Desafios da Primeira Infância”.

Mas há coisas importantes sobre o Brasil que possivelmente ele não sabe, e sobre as quais, como convidado, dificilmente poderia opinar. Mas, se o fizesse, certamente sua contribuição para nós poderia ser ainda maior do que o que vem fazendo com sua persistente, sólida e necessária pregação sobre a importância de investimentos adequados na Primeira Infância.

Heckman possivelmente não sabe que o país está prestes a aprovar um currículo para a educação infantil e para a alfabetização que ignora solenemente a evolução das Ciências do Desenvolvimento Humano e as evidências científicas sobre o que deveria constar em um documento desta importância.

Heckman possivelmente não sabe que as recomendações do Relatório do Grupo de Trabalho sobre Educação Infantil [disponível para download gratuito], convocado pela Academia Brasileira de Ciências em 2010/2011, do qual ele participou, continua sendo totalmente ignorado pelas autoridades e pela parcela da comunidade acadêmica que monopoliza a discussão sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Possivelmente também jamais leu qualquer publicação científica dos autores responsáveis pelos documentos da Base – por razões que talvez sejam óbvias.

E também é possível que Heckman não saiba que o Ministério da Educação e o Conselho Nacional de Educação – que certamente enviarão representantes para ouvi-lo e aplaudi-lo – não se dispõem a abrir qualquer espaço para um debate cientificamente fundamentado sobre as propostas em curso.

A entrevista de Heckman para a Revista Veja confirma o que ele defende há décadas com base em evidências cada vez mais robustas. O que é necessário, sobretudo em países em desenvolvimento como o Brasil? Priorizar os investimentos na Primeira Infância; ter, nos municípios, políticas diferenciadas – as intervenções devem ser cientificamente fundamentadas e implementadas com pessoal qualificado; ter um currículo de pré-escola que assegure a prontidão escolar das crianças, especialmente as mais vulneráveis; e garantir que os investimentos em educação infantil sejam continuados com intervenções bem estruturadas – e não com currículos aguados, como esse que se propõe na BNCC para a alfabetização das crianças.

O trabalho de James Heckman mudou a forma de se pesquisar e se pensar a respeito de investimentos em capital humano. Tem repercutido tanto na área da pesquisa científica quanto nas políticas de muitos países – no mínimo, tem servido de alerta e de bandeira.

Mas é preciso aproveitar uma oportunidade como esta não apenas para ouvir e celebrar tão ilustre cientista – é preciso levar a sério o que ele está dizendo e entender em profundidade que política de primeira infância não é brincadeira de criança.

No Brasil, cultuamos o hábito de construir e destruir ídolos – ficamos fascinados pelo brilho dos mesmos. E nos esquecemos de olhar para onde eles apontam e trilhar os árduos, porém frutíferos, caminhos da educação baseada em evidências.

*João Batista Oliveira é graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1969), com mestrado em psicologia pela Tulane University (1972) e doutorado em pesquisa educacional pela Florida State University (1973). Atualmente é presidente do Instituto Alfa e Beto. Tem experiência na área de educação, com ênfase em ensino-aprendizagem, atuando principalmente no seguinte tema: alfabetização, fluência de leitura, ensino estruturado e gestão da educação. Participou da elaboração do estudo estratégico da Academia Brasileira de Ciências sobre Aprendizagem Infantil.


(João Batista Oliveira para revista VEJA, 24/9/2017)



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