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CIÊNCIA NA MÍDIA

Cientistas reconstituem rosto de homem que viveu há 2 mil anos no Rio

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Publicado em 26/03/2018

RIO - Ele viveu em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, em uma região de mangue bem próxima da praia. Alimentava-se de peixes e, provavelmente, fosse também um remador. Esse carioca típico de 2 mil anos atrás tinha cabelos longos, feições indígenas e era bem queimado de sol. Pelo menos é o que garantem os pesquisadores que apresentaram nesta quinta-feira, 22, no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos mais antigos habitantes do Rio: Ernesto.

Trata-se, na verdade, da primeira reconstrução facial digital em 3D de um crânio humano carioca. O trabalho foi feito com base em um fóssil achado na região de Guaratiba na década de 1980 por pesquisadores do Museu Nacional. E o nome foi uma homenagem a Ernesto de Salles Cunha (1907-1977), um dos mais importantes pesquisadores da paleologia brasileira.

"Buscamos, entre os esqueletos que tínhamos no museu, aquele mais bem preservado para fazer a reconstrução", afirmou o bioarqueólogo Murilo Bastos, do Museu Nacional, um dos responsáveis pelo projeto.

Bastos explicou que o objetivo é, justamente, criar empatia junto à população em relação a seus antepassados.

"A ideia era dar um rosto para esses povos antigos do Rio, anteriores mesmo aos índios tupinambás, para as pessoas entenderem a importância da preservação dos sítios arqueológicos."

O fóssil foi encontrado no sítio arqueológico Sambaqui Zé do Espinho. Os sambaquis são estruturas feitas por conchas e outros materiais pelos povos que habitavam o litoral entre 8 mil e 1 mil anos atrás, aparentemente para intenções de sepultamento. O esqueleto escolhido pertencia a um homem, de aproximadamente 38 anos de idade, bem baixinho para os padrões atuais: ele teria entre 1,4 m e 1,5 m de altura.

"Os ossos revelam muitas coisas sobre ele", conta Bastos. "Os membros superiores apresentam mais artrose, mais desgaste, indicando uma atividade física mais intensa; não tem como ter certeza, mas como ele vivia numa região de mangue, é possível que remasse muito."

A ausência de cáries também revela pistas importantes sobre seus hábitos alimentares. Ernesto de Guaratiba era um caçador-coletor, que se alimentava da caça de pequenos animais e da pesca.

"Era uma dieta pobre em carboidratos, o que explica a ausência de cáries", explicou Bastos.

A reconstrução do rosto em 3D foi mais complexa.

"Nós usamos a técnica da fotogrametria, que consiste em tirar diversas fotos do crânio, em diversos ângulos. Processando essas imagens, cheguei ao modelo 3D virtual do crânio", explicou o pesquisador Paulo Miamoto, especialista em anatomia e odontologia legal da Universidade de São Leopoldo Mandic, em Campinas. "Fazendo uma espécie de engenharia reversa, com base na anatomia do crânio, vamos reposicionando as estruturas anatômicas, músculos, cartilagens."

Por fim, o conjunto é recoberto por pele virtual. "Para fechar o processo, usamos informações fornecidas pelo contexto, pela arqueologia, com base nas informações que dispomos: sabemos que praticava atividade física, que vivia ao ar livre, então devia ser bem bronzeado", exemplificou.

O cabelo escuro e liso remete ao que seria o padrão entre os ancestrais dos indígenas do litoral. E o comprimento dos fios, na altura dos ombros?

"Ah, isso foi uma licença poética mesmo", admite Bastos.


(Roberta Jansen, para o Estado de S. Paulo, 23/03/2018)



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